Tanatologia

A Definição de Morte

Colaborador: Antonio Cesar Antoniazzi *

* Médico e pós-graduado do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO

Um dos grandes sofrimentos dos que estão morrendo é perceber que não há ninguém que os acompanhe até a beira do abismo. Eles falam sobre a morte mas os outros logo ficam sem graça, não sabem o que dizer e desconversam. (Rubem Alves, Mosaico de Pensamentos,2000)

Para morrer bem e viver bem até o final de nossa vida, é importante aprender a falar sobre o que está nos acontecendo. Há várias razões que justificam nossa dificuldade em abordar a gravidade de uma doença ou a morte de uma pessoa doente, e aceitamos que a ignorância ou o engano é o melhor para o doente, e muitas vezes fugimos de pedidos explícitos ou sutis do doente que questiona sobre seu real quadro.

Poder estar informado, conhecer seu estado de saúde e prognóstico, perguntar e comunicar suas dúvidas e inquietações, favorece seu estado anímico, permite que exerça o direito de determinar como quer viver o tempo que lhe resta, tanto pessoal, familiar e profissional, proporciona-lhe condições para que partilhe com o médico decisões sobre o tratamento e sua eficácia, optando se é o melhor e suportável para ele, e reafirma sua necessidade de controle da situação e que não vai ser submetido a medidas inúteis ou que prolonguem sua vida mais do que seu desejo. Para o médico isto é um guia valioso para nortear suas intervenções, e para a família poder entender e aceitar mais facilmente as decisões. O doente conta então com a base de afeto, proteção, companhia, aceitação e respeito para realizar seu processo interno de separação e preparação espiritual para sua morte, e decidir sobre o momento e as condições da mesma.

Tratando-se de um doente terminal, não se fala somente em morrer bem, mas de viver tão bem quanto lhe seja possível e com significado. Não basta só ser informado, mas de estar comunicado, de estar com os familiares, pois vivemos nos relacionando com as outras pessoas, comunicando-nos com elas. A comunicação é uma condição sine qua non para a vida humana.

Uma das coisas que mais magoa a pessoa é ser negligenciada, não ser considerada, não ser alvo de comunicação, ser ignorada. Comunicar não é apenas transmitir informações, o conteúdo, mas a atitude. A comunicação é o meio pelo qual somos reconhecidos, valorizados, ou, ao contrário, ignorados, rejeitados.

O temor da morte é inato em todos nós, gerando sentimentos não racionais e de difícil comunicação. Não compreendemos nossa não-existência nem a perda total da identidade. Diante dela, estamos frente a algo desconhecido, cheio de incertezas, não só do que virá depois, mas também do processo em si de morrer, sobre o instante crucial da morte.

A comunicação em uma doença grave ou terminal é um processo. Inicia-se com a informação do diagnóstico, no prognóstico e plano de tratamento. À medida que a doença avança, novos questionamentos surgem como a deterioração, quanto tempo de vida ainda resta ao doente, como vai ser sua morte.

O trabalho médico nesta hora, não consiste em dar as más notícias e somente informar ao doente, é necessário criar um clima psicológico que permita minorar o impacto da notícia. A questão não é dar ou não a notícia, e sim como fazê-lo, e além do quanto se diz, há o que se diz. É um processo de escuta, de ouvir as perguntas e detectar os sentimentos. É manter uma atitude que transmita ao doente o seu interesse como pessoa e compreendê-lo em sua individualidade. Aprender a escutar necessita o mesmo tempo de treinamento que para os procedimentos técnicos sofisticados.

O local e o momento para se dar a conversa com o doente é de grande importância, para se criar um clima propício, tranqüilo e privado, transmitindo a disposição para conversar sem pressa. Se puder, pergunte se prefere conversar sozinho ou estar acompanhado de alguém.

Os doentes sabem, ou intuem, sobre o que está acontecendo com eles, mesmo que não sejam informados diretamente. É preciso considerar que há muitas verdades e diferentes momentos para dizê-las. Não contar, ou pretender que nada está acontecendo, favorece que se crie uma situação que denomina-se de “teatro de má qualidade” (Kovács, 1992). Este comportamento leva a uma situação conhecida como conspiração do silêncio, onde ocorre o isolamento do doente, manifestado por um silêncio sem palavras, ou num palavrório que silencia o que de mais importante tem a ser compartilhado: sentimentos, dúvidas e questões que se tornam prementes quando a morte se aproxima. Não basta apenas derramar as informações, é preciso estimulá-los a falar, receber informações deles e ter a sensibilidade para perceber quando eles preferem o silêncio. Eles temem incomodar o médico e a última coisa que desejam é serem abandonados nesses momentos.

Quando se fala da gravidade, é importante que se dê alguma informação positiva como “Seus exames estão bons”, “Temos outras medicações para usar”, etc. Os doentes precisam saber que alguns aspectos seus se mantêm bem. Para eles é sempre importante saber sobre as medidas que serão tomadas para aliviá-los, mesmo que não haja cura para seu caso.

É importantíssimo tratar o doente como uma pessoa ímpar e diferente de todas as outras. Reconhecê-lo como um indivíduo, com uma família, com uma história, com suas crenças e algumas outras necessidades.

Conscientizar o doente sobre o agravamento do seu quadro não significa deixá-lo sem saída ou esperança, mas que ele pode contar com os cuidados que lhe tragam dignidade no fim da vida. Inquietações surgem nesta hora sobre o sofrimento durante a agonia. Este é o momento que mais devemos obter informações dele sobre o que ele teme, o que mais o preocupa, o que está imaginando, e fornecer-lhe alternativas de como lidar com elas.

Ao contrário, devemos também respeitar quando alguém não quer ou não pode falar sobre sua doença ou sua morte. Há pessoas que preferem manter seus processos de negação e isolamento, ou desejam que os outros tomem conta de suas vidas.

Cecily Saunders (1991) com seu trabalho, abriu novos caminhos para quando o mais nada a fazer aparece, porque a cura da doença não é mais possível. Surgiu o conceito de dor total, onde a importância do cuidar dos sintomas físicos se somam aos cuidados do sofrimento psíquico e espiritual e do isolamento social que a doença provoca. Assim, a morte não sendo mais vista como fracasso ou erro médico, mas como decorrência da vida, conseqüência do processo de adoecimento, e se a vida continua até o momento da morte, cabe aos profissionais da saúde buscar a melhor qualidade de vida possível atendendo às necessidades do doente, através de uma comunicação aberta, favorecendo a morte com dignidade.

Definir o que é “boa morte” provoca acaloradas discussões entre os profissionais da área de cuidados paliativos. Segundo Clarke e Seymour (1999), as mortes consideradas boas são as que têm os seguintes aspectos: ter consciência, aceitar, se preparar, estar em paz e ter dignidade.

Com o movimento de cuidados paliativos, a relação profissional de saúde-paciente-familiares promoveu uma mudança de mentalidade, abandonando a posição paternalista, onde a equipe de saúde sabe tudo e toma as decisões, e adotando a posição participativa e simétrica, envolvendo os pacientes e familiares na condução do tratamento, abrindo um canal de comunicação que busca ser efetivo.

Referências:

Alves, R., Morte. Campinas, S. P.: Papirus, 2000 (Coleção Mosaico).

Pessini, L., Bertachini, L., Humanização e Cuidados Paliativos. São Paulo: Edições Loyola, 3 edição, 2006.

Simpósio Internacional sobre Cuidados Paliativos, organizado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo com apoio da Academia Nacional de Cuidados Paliativos: São Paulo, novembro 2007.




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